sexta-feira, 29 de maio de 2009

...Amante de utopias e virtudes...

"O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta — um pobre louco
Que leva os dias a sonhar — insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?"
(Um cadáver de poeta - Álvares de Azevedo)


O relógio marcava três horas da manhã quando Helena se levantou da cama. Ainda não dormira. O acontecimento do fim de tarde anterior, por menor que fosse não deixou que o sono lhe abordasse. Helena foi até a janela, abriu-a e contemplou a Lua, que parecia estar maior, mais próxima da Terra, como se tivesse se aproximado apenas para consolá-la. Ela sempre acreditou na existência de vampiros, mas jamais imaginou conhecer algum.
•••••••
Era início de tarde quando Helena decidiu ir caminhar pelo parque Ibirapuera. Já que morava tão perto dali, aproveitava seus momentos livres para ir ao parque ler ou caminhar. Naquela tarde a moça apenas desejava sossego, ar livre, vinho e boa leitura.
Helena lia Poemas Malditos, de Álvares de Azevedo. Não era a primeira vez que lia, mas gostava muito desse livro, ele tinha um valor sentimental para ela. Ao terminar a leitura, Helena foi até o MAM, onde homenageavam algum artista desconhecido para ela, mas muito interessante. Helena apenas olhava toda a exposição por fora, de onde podia ver uma escultura grande, cheia de detalhes. Mesmo não conseguindo ver direito, por estar escuro e longe desta, ela deduziu ser um morcego, com asas e olhos de espelhos. Ela olhava para o espelho maior da escultura tentando se ver refletida, quando pelo espelho, encontrou atrás de si um senhor baixo, como encolhido pela idade, completamente enrugado, sem cabelos, com a pele descorada e olhos vermelhos. A única coisa que lhe parecia viva e ainda jovem era o olhar. Ao perceber que a moça contemplava aquele quadro medonho que era seu reflexo no espelho, este homem que aparentava ter muito mais de cem anos de idade, levou as mãos ao rosto – onde Helena pôde ver suas unhas enormes, quase podres e seu anel de ouro que lhe cobria boa parte do dedo longo e fino – e se afastou.
Helena se virou rapidamente, procurando aquele ser, para ter certeza de que realmente o vira. A cena havia durado poucos segundos, mas ela levaria consigo a certeza de que jamais a esqueceria. Ela procurou o homem-monstro, mas só o que havia atrás de si naquele momento era um homem alto, de longos cabelos negros, um sorriso belo e prazeroso de se ver. Este vestia um sobretudo preto com um forro roxo, que assentava-se com as teias de aranha bordadas em seu coturno. Para Helena, o homem parecia perfeito, não fosse pelos olhos negros e penetrantes que pareciam carregar todo o segredo do mundo dentro de si, pareciam ler os desejos da alma e o anel de ouro que ela reconhecera. O rapaz era a figura terrível que refletira o espelho. Naquele instante Helena ficou imóvel, com uma lágrima lhe escorrendo pela face. Helena acabara de conhecer um vampiro.
Sorrindo, aquele homem se aproximou de Helena e lhe estendeu sua mão. Ela pôde ouvir sua voz grave lhe dizendo para que não temesse, mas ele não movera a boca, a não ser para sorrir aquele sorriso doce, que a moça parecia conhecer tão bem. Helena lhe sorriu também, mas o fez como obrigação.
- Já lhe disse que não há o que temer – Disse ele, aproximando-se cada vez mais.
- E não o temo, apenas estranhei sua presença. Quem é você?
- Meu nome é Arthur. E o seu qual é?
- Helena. Muito prazer! – Disse ela, já sem medo do desconhecido.
- Eu já esperava que me dissesse isso. Helena é Luz, e é exatamente o que você me transmite.
Ela corou. Já não sabia mais o que dizer. Achava loucura, mas a cada palavra dita por Arthur lhe dava mais certeza de que aquele homem era um vampiro. Eles existiam e ela sabia disso, mas os tinha como se fossem uma lenda qualquer que só existe pelo fato de acreditar neles, não por serem reais. E existiam, eram reais!
Percebendo a reação de Helena, Arthur virou-se como se fosse partir.
-Espere! Tenho perguntas a lhe fazer. – Disse ela, meio constrangida.
Arthur riu e disse:
- Pois então as faça. Tenho todo o tempo do mundo para dedicar-me á ti.
- Acha que foi um erro me deixar reconhecer-te?
- Vampiros nunca erram, pequena.
- Então porque me deu as costas? Não iria embora?
Arthur soltou uma gargalhada e pegou a mão de Helena.
- Eu sabia que não me deixaria partir. Há tanto tempo vivo nesta Terra que não há nada que eu não saiba sobre humanos.
Helena pensou que de fato aqueles olhos carregavam consigo todo o segredo do mundo.
Arthur passou as mãos pelos longos cabelos e continuou:
- Sei que há mais perguntas. Faça-as e eu lhe responderei com sinceridade.
- Leu minha mente outra vez, Senhor vampiro?- Perguntou Helena no tom mais irônico que pôde achar em seu repertório.
- Certamente! –Respondera Arthur, mais sorridente do que nunca – Não é sempre que se encontra e reconhece um vampiro por ai. É de se esperar que haja mais perguntas.
- Disse que me responderia com sinceridade. Achei que todos os vampiros tivessem o dom de dissimular, não?
Arthur parecia se divertir com o questionário.
- Sim, nós o temos, mas só usamos quando necessário.
-Quem me garante que não o usa agora?
- Faça-me as perguntas e tome suas conclusões através de minhas respostas.
Helena e Arthur estavam sentados sob a Lua. Quando ele olhava para o céu seus olhos pareciam vermelhos, assim como ela vira no espelho. Os cabelos do vampiro brilhavam ainda mais sob o Luar. Helena lhe fez a pergunta que tanto ansiava, mas parecia insegura.
- Vocês vampiros são filhos de Deus? – Assim que perguntou, seu rosto corou e Helena ficara tão vermelha quanto os próprios cabelos ou os olhos do vampiro sob o céu escuro. Arthur achou graça da cena, mas respondeu a pergunta com seriedade:
- É claro que somos, menina. Tudo o que existe é criação d’Ele, logo, nós também somos.
- Desde criança ouço dizer que vampiros são seres do mal...
Arthur soltou outra gargalhada.
- Deve se preocupar apenas com seus humanos. Eles não têm o dom da paciência que a imortalidade proporciona. Eles não viram com seus próprios olhos as catástrofes ocorridas há centenas de anos. Estes seus colegas mortais são avarentos e luxuriosos sem ao menos ter direito de o ser.
- Por que diz isto? Vampiros também são luxuriosos.
- Sim, nós somos. Quando vocês morrerem não levarão nada da Terra, nem os prazeres. Nós não! Nós temos necessidade disto, porque é só o que nos resta por toda a eternidade, seja lá o quanto ela dure.
Os dois pararam de falar por um instante. Ele contemplava os pássaros noturnos do parque e ela pensava em mais perguntas para fazer, afinal, ele teria toda a eternidade. Ela não. Por fim, Helena disse:
- E aquela imagem medonha refletida no espelho?
- Aquele sou eu.
- Como assim? – Helena franziu o rosto e inclinou-se para frente, pois esta resposta lhe interessava mais do que todas as outras.
- Somos seres amaldiçoados, como bem sabe. Por dentro envelheço como qualquer outro. Eu posso vencer a morte, não o tempo. Por fora sou assim, tão jovem quanto naquele 7 de Outubro de 1849.
É como se a maldição que carrego comigo afetasse a todos que me veem, exceto aos espelhos, por poderem ver, mas não pensar. As pessoas me veem assim porque escolher o que querem ver, mesmo incondicionalmente. Os espelhos não. É a mais pura verdade quando dizem que espelhos não mentem.
Helena prestava atenção em todas as palavras de Arthur, em todos os movimentos, tentando crer que ele realmente era real.
Ela procurava as palavras para dizer o que sentia, mas era como se elas não existissem. Era perceptível que Helena estava completamente atordoada.
- Não procure palavras, menina – Dizia Arthur – Apenas sinta. Algumas palavras podem te afastar de Deus! Quando se tenta exprimir o que se sente, pode-se diminuir a intensidade da emoção e Deus passa a não habitá-la mais! Quando não puder dizer o que sente, apenas viva.
- E este anel, Arthur? – Helena tentou tocá-lo, mas Arthur não permitiu.
- Carrego comigo desde sempre. É minha única companhia.
O anel parecia agora mais atraente para Helena, por ter acompanhado toda a ‘vida’ de um vampiro!
Arthur se levantou, beijou as mãos de Helena, deu o último gole da garrafa de vinho já quente e foi embora, sem dizer mais nada. Ela fechou os olhos e ouviu um sussurro ao seu ouvido. Era a voz de Arthur lhe dizendo Adeus!
••••••••••••••
Helena ficou por horas na janela, pensando no acontecido. Aquilo que sentia parecia a maior das emoções do mundo. Forte demais para ser qualquer coisa que ela pudesse ter sentido antes.
- Não seria amor – Dizia a si mesma – Pode apenas ser feitiço. Ele é um VAMPIRO! É impossível se apaixonar por um vampiro.
Helena fechou os olhos e suspirou fundo, segurando alguma lágrima que insistia em lhe escorrer pelo rosto. Ela ouviu mais uma vez a voz de Arthur que dizia que vampiros não se apaixonavam, mas garotas como ela sim! Quando abriu os olhos, ali na janela estava o anel de Arthur.
Ela sentiu que aquela noite fora tão intensa que nunca mais viveria de novo. Arthur havia lhe tomado os sentidos todos. Helena pensou que talvez este fosse o segredo da imortalidade do vampiro.

2 comentários:

Unknown disse...

Marystela vc me assusta...
Como pode escrever tão bem? *--*
Já te disse e repito as personalidades, situações, falas, enfim... todo o contexto ta perfeito!
Quero muito que vc tome gosto pelos contos e que desenvolva mais esses personagens ;D

Essa minha amiga só me enche de orgulho viu!

Bjokas

-†- A Ira Dos Anjos -†- disse...

:$